Tem dias em que a agenda está completamente organizada.
Reuniões marcadas. Equipe trabalhando. Clientes esperando respostas. Tarefas definidas. Planejamento pronto.
Então, no meio da madrugada, seu filho acorda com febre.
E, de repente, aquela agenda que parecia tão importante algumas horas antes deixa de fazer sentido.
Quem é mãe e também administra uma empresa provavelmente já viveu — ou ainda vai viver — alguma versão desse dia.
Você olha para o filho precisando de você e sabe onde quer estar. Ao mesmo tempo, lembra da reunião das 9h, do cliente esperando uma decisão, do financeiro que precisa ser aprovado e daquela entrega que deveria acontecer hoje.
É nesse momento que surge uma pergunta silenciosa: Hoje eu preciso ser CEO ou mãe?
A resposta que fui aprendendo é que talvez essa seja a pergunta errada.
Porque eu não deixo de ser CEO quando minha filha fica doente. E também não deixo de ser mãe quando entro em uma reunião importante.
O verdadeiro desafio é construir uma empresa que consiga continuar funcionando nos dias em que a vida exige que a maternidade ocupe o primeiro lugar da agenda.
E isso não é uma situação rara. Uma pesquisa nacional do Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME), publicada em agosto de 2026, mostrou que 75% das empreendedoras participantes não contam com apoio informal para o cuidado. Além disso, 80,7% já precisaram interromper atividades da empresa para realizar tarefas de cuidado, e 61,7% afirmaram que essa sobrecarga interfere diretamente no desenvolvimento do negócio.
Então vamos conversar sobre vida real.
Sobre como conciliar filho doente com a empresa, o que pode ser organizado antecipadamente e como atravessar aqueles dias em que simplesmente não será possível cumprir tudo.
Quando seu filho fica doente, a prioridade do dia muda
Essa é a primeira coisa que precisei entender.
Existem prioridades planejadas e existem prioridades que aparecem.
Uma reunião importante é prioridade.
Um planejamento financeiro é prioridade.
Uma negociação é prioridade.
Mas uma criança que acorda passando mal pode mudar completamente a ordem dessas prioridades.
Isso não significa que a empresa deixou de ser importante.
Significa apenas que naquele momento surgiu algo mais urgente.
Quando uma criança está doente, inclusive, determinadas situações exigem avaliação profissional. Em quadros respiratórios, por exemplo, o Ministério da Saúde orienta buscar atendimento diante de sinais como dificuldade ou aceleração da respiração, lábios ou unhas arroxeados, sonolência excessiva, dificuldade para se alimentar ou ingerir líquidos, febre persistente ou piora dos sintomas.
A parte médica deve ficar com profissionais de saúde.
A nossa conversa aqui é sobre outra questão: o que fazer com a empresa enquanto você precisa cuidar do seu filho?
A primeira regra: não tente manter um dia normal
Talvez esse seja um dos maiores erros.
Seu filho está doente.
Você dormiu mal.
Está observando sintomas.
Talvez precise ir ao pediatra.
Pode precisar administrar medicamentos prescritos nos horários indicados, preparar comida, oferecer líquidos, trocar roupa, dar banho ou simplesmente ficar perto.
E ainda assim abre o notebook pensando: “Vou trabalhar normalmente.”
Provavelmente não vai.
E tentar reproduzir sua rotina normal dentro de um dia completamente anormal tende a gerar ainda mais frustração.
Em vez disso, transforme o dia em uma espécie de modo de contingência.
A pergunta deixa de ser: “Como vou fazer tudo?”
E passa a ser: “O que realmente não pode ficar sem resposta hoje?”
Essa mudança parece pequena, mas ajuda muito.
Crie três níveis de prioridade
Quando acontece algum imprevisto familiar, eu gosto muito mais da ideia de reduzir do que tentar encaixar.
Você pode dividir as tarefas mentalmente em três grupos:
1. Precisa acontecer hoje.
São situações realmente urgentes. Uma aprovação que bloqueia toda a equipe, um pagamento com vencimento, uma decisão que ninguém consegue tomar sem você ou uma reunião impossível de remarcar.
2. Outra pessoa consegue resolver.
Aqui entram tarefas que você normalmente faria, mas que podem ser delegadas.
3. Pode esperar.
E provavelmente existe muito mais coisa nessa categoria do que imaginamos.
Aquele relatório pode esperar.
A reunião interna talvez possa mudar de dia.
O conteúdo pode ser publicado amanhã.
A apresentação pode ser finalizada depois.
O mundo empresarial cria uma sensação de urgência constante.
Mas urgente e importante não são sinônimos.
Uma empresa saudável precisa sobreviver a um dia sem a CEO
Essa frase pode incomodar.
Principalmente quem está começando.
Mas ela também pode ser libertadora.
Se você precisa estar disponível para absolutamente todas as decisões da empresa, existe uma dependência operacional muito grande da fundadora.
E filho doente é apenas uma das situações capazes de revelar isso.
Você também pode:
- ficar doente;
- precisar acompanhar alguém ao médico;
- tirar férias;
- participar de um evento;
- viajar;
- ter um compromisso pessoal;
- simplesmente precisar descansar.
Por isso, construir processos não serve apenas para aumentar produtividade.
Serve para criar liberdade.
Já falei sobre essa rotina no artigo Um Dia Real na Rotina de uma Mãe, Esposa e CEO. Conciliar empresa e família não significa conseguir entregar 100% para todas as áreas todos os dias.
Alguns dias serão mais empresa.
Outros serão mais família.
E alguns serão simplesmente sobrevivência. 😅
Delegar antes da emergência é muito melhor
O pior momento para descobrir que ninguém sabe fazer uma tarefa é quando você precisa se afastar.
Por isso, delegação precisa acontecer antes.
Imagine que somente você sabe:
- autorizar determinado pagamento;
- responder determinado cliente;
- consultar determinada informação;
- acessar determinada ferramenta;
- aprovar determinado processo;
- resolver determinado problema.
Você criou vários pontos de dependência.
Isso não significa compartilhar acessos sensíveis indiscriminadamente ou deixar todo mundo fazer tudo.
Significa estruturar responsabilidades, permissões e processos adequadamente.
Pergunte: “Se amanhã eu precisar ficar completamente offline durante um dia, o que vai parar?”
Anote as respostas.
Ali está uma ótima lista de processos que precisam ser melhorados.
Documente as tarefas importantes
Não precisa criar um manual de 300 páginas.
Comece pequeno.
Você pode documentar:
- como atender determinada situação;
- quem aprova o quê;
- quem substitui quem;
- onde ficam documentos;
- como funciona determinado processo;
- quais clientes exigem atenção especial;
- quem deve ser acionado em emergências;
- quais decisões podem ser tomadas sem você.
Pode ser um documento.
Um checklist.
Um vídeo curto mostrando a tela.
Uma página na ferramenta de gestão.
O formato importa menos que uma coisa: a informação não pode existir somente dentro da sua cabeça.
Isso também conversa com o que falei no conteúdo sobre CRM e organização de contatos e oportunidades. Quanto mais informação importante fica centralizada e organizada, menos a empresa depende da memória de uma única pessoa.
Tenha uma pessoa de confiança dentro da empresa
Se você possui equipe, tente construir uma liderança que consiga assumir determinadas decisões na sua ausência.
Não precisa ser alguém capaz de substituir você completamente.
Pode ser alguém que saiba:
- o que é prioridade;
- quem procurar;
- quais problemas consegue resolver;
- o que realmente precisa esperar você;
- como comunicar uma emergência.
Isso evita aquela situação maravilhosa de estar esperando atendimento no pediatra enquanto chegam 37 mensagens:
“Thaís, pode aprovar?”
“Thaís, onde está?”
“Thaís, o cliente perguntou…”
“Thaís?”
“Thaís??” 😂
Se tudo chega até você, sua ausência física não significa ausência operacional.
Você continua trabalhando pelo celular.
Avise sua equipe com clareza
Você não precisa escrever uma explicação enorme.
Algo simples pode funcionar:
“Minha filha não está bem hoje e vou ficar mais ausente. Fulano assume X, ciclano fica responsável por Y. Se surgir algo realmente urgente que dependa de mim, me chamem.”
Pronto.
Sua equipe sabe o que está acontecendo.
Sabe que você não estará disponível normalmente.
E sabe quem procurar.
Comunicação evita expectativas erradas.
Cancele reuniões sem transformar isso em um drama
Essa é difícil para quem gosta de cumprir compromissos.
Mas às vezes será necessário.
Você pode simplesmente dizer:
“Tive um imprevisto familiar e precisarei remarcar nossa reunião de hoje. Podemos reagendar para amanhã/quinta-feira?”
Não precisa contar detalhes da saúde da criança para todo cliente.
Não precisa escrever cinco parágrafos pedindo desculpas.
Imprevistos existem.
E empresas são feitas por pessoas.
Naturalmente, compromissos realmente críticos precisam ser avaliados individualmente. Talvez outra pessoa possa participar no seu lugar.
É justamente por isso que ter equipe e processos faz diferença.
Se precisar trabalhar, reduza o trabalho ao mínimo necessário
Dependendo da situação da criança, talvez seja possível resolver algumas coisas enquanto ela descansa.
Mas cuidado para isso não virar:
“Já que ela dormiu, vou trabalhar quatro horas seguidas.”
Você também pode ter passado a noite acordada.
E provavelmente precisará continuar cuidando dela quando acordar.
Em vez de abrir 15 tarefas, escolha duas ou três realmente necessárias.
Por exemplo:
- aprovar pagamentos;
- responder uma decisão crítica;
- orientar a equipe.
Terminou?
Feche.
Hoje não precisa ser o dia em que você vai reorganizar o planejamento estratégico da empresa.
Trabalhar de casa pode ajudar — e também atrapalhar
Quando existe possibilidade de home office, lidar com determinados imprevistos familiares pode ser logisticamente mais simples.
Mas existe uma armadilha.
O notebook está ali.
O celular está ali.
O escritório está a cinco passos.
E você pode acabar tentando cuidar da criança e trabalhar simultaneamente durante dez horas.
No final do dia, sente que não trabalhou direito.
E que também não esteve presente como gostaria.
Por isso, mesmo no home office, tente criar blocos.
Quando a situação permitir: agora estou com meu filho.
Depois: agora vou resolver essas duas pendências.
Se você trabalha frequentemente em casa, veja também Como Montar um Home Office Pequeno, Bonito e Produtivo Gastando Pouco.
A sobrecarga materna não é apenas impressão
Quando falamos sobre maternidade e empreendedorismo, existe uma tendência de transformar tudo em problema de organização pessoal.
“Você precisa administrar melhor seu tempo.”
“Precisa acordar mais cedo.”
“Precisa criar uma rotina.”
Mas os dados mostram que existe uma questão maior.
Na pesquisa Empreendedoras e Seus Negócios 2026, três em cada quatro participantes disseram não possuir apoio informal para tarefas de cuidado. E 80,7% afirmaram já ter interrompido atividades do próprio negócio para cuidar de alguém.

Isso muda a maneira de olhar para a questão.
Organização ajuda.
Processos ajudam.
Delegação ajuda.
Rede de apoio ajuda.
Mas nenhuma agenda consegue eliminar completamente o fato de que cuidar exige tempo.
Rede de apoio não deveria existir apenas para emergências
Rede de apoio pode envolver companheiro ou companheira, avós, familiares, pessoas próximas e, conforme a realidade financeira da família, profissionais contratados.
Mas apoio não deveria significar apenas: “Alguém pode ficar com meu filho para eu trabalhar?”
Às vezes você precisa justamente estar com seu filho.
Nesse caso, sua rede pode assumir outras coisas.
Alguém prepara comida.
Busca um medicamento prescrito.
Resolve uma tarefa doméstica.
Leva outro filho à escola.
Ajuda com compras.
Ou simplesmente fica disponível caso você precise.
Rede de apoio não substitui mãe.
Rede de apoio diminui a quantidade de coisas que a mãe precisa carregar simultaneamente.
Divida a responsabilidade dentro de casa
Quando existe outro responsável pela criança, cuidado também precisa ser responsabilidade compartilhada.
Nem sempre é possível dividir o dia exatamente 50/50.
Cada família possui uma dinâmica.
Mas vale conversar.
Talvez uma pessoa fique com a criança pela manhã e outra à tarde.
Talvez você faça uma reunião realmente importante enquanto seu parceiro assume naquele período.
Depois vocês trocam.
O objetivo não é criar uma escala perfeita.
É evitar que automaticamente todo imprevisto envolvendo o filho se transforme exclusivamente em um problema profissional da mãe.
Existe culpa quando você trabalha
Você está respondendo uma mensagem e olha para seu filho no sofá.
Pronto.
Culpa.
“Eu deveria estar dando atenção.”
Então você fecha o computador.
Vinte minutos depois lembra de uma pendência importante.
Outra culpa.
“Eu deveria estar trabalhando.”
Esse ciclo é extremamente desgastante.
Já escrevi sobre isso em Rotina Produtiva para Mulheres Ocupadas.
A pesquisa do IRME ajuda a colocar essa experiência em perspectiva: a interrupção do trabalho por responsabilidades de cuidado aparece na vida de grande parte das empreendedoras entrevistadas.
O objetivo, portanto, não precisa ser criar um dia em que nenhuma área seja afetada.
Talvez o objetivo possível seja: atravessar aquele dia atendendo ao que é realmente necessário.
E existe culpa quando você não trabalha
Essa também aparece.
Principalmente para empreendedoras.
Porque, diferente de muitos empregos tradicionais, não existe necessariamente alguém dizendo: “Você está liberada hoje.”
A empresa continua existindo.
O WhatsApp continua recebendo mensagens.
Os boletos continuam vencendo.
Os clientes continuam comprando.
A equipe continua trabalhando.
Por isso, afastar-se pode provocar a sensação de que você está abandonando alguma coisa.
Mas uma empresa que pretende durar anos precisa conseguir absorver imprevistos humanos.
Inclusive os seus.
Nem todo dia precisa ser produtivo
Essa frase parece óbvia.
Mas é difícil colocá-la em prática.
Principalmente quando estamos acostumadas a medir o dia por:
- tarefas concluídas;
- reuniões;
- vendas;
- resultados;
- mensagens respondidas.
Em um dia com filho doente, talvez produtividade seja:
- levar ao médico;
- acompanhar corretamente as orientações recebidas;
- garantir que a empresa saiba como funcionar sem você;
- resolver duas pendências realmente críticas;
- e ficar junto.
Só isso.
E já foi um dia cheio.
O próprio Sebrae tem abordado a sobrecarga de quem empreende e como a mistura entre negócio, vida pessoal, pressão financeira e responsabilidades pode dificultar o descanso e afetar decisões.
Use esses dias como um teste para a empresa
Depois que tudo passar e a rotina voltar ao normal, faça uma pequena retrospectiva.
Pergunte: O que parou porque eu não estava?
Essa pergunta é poderosa.
Se determinado processo travou, documente.
Se ninguém sabia tomar uma decisão, delegue.
Se todos precisaram falar com você, reveja responsabilidades.
Se um cliente ficou sem atendimento, crie uma cobertura.
Se informações estavam apenas no seu WhatsApp, centralize.
Se você precisou entrar em cinco sistemas para liberar coisas simples, pense em processos.
Assim, um dia difícil também revela onde sua empresa ainda depende demais de você.
Esse aprendizado é especialmente importante para mulheres que estão fazendo o negócio crescer. No artigo Os Maiores Desafios do Empreendedorismo Feminino e Como Superá-los, mostro como sobrecarga, delegação, tempo e cuidado aparecem juntos nessa jornada.
Crie um “plano filho doente”
Pode parecer exagero.
Até o dia em que você precisar dele. 😅
Não precisa ser um documento formal.
Crie apenas um pequeno protocolo pessoal.
Se meu filho ficar doente amanhã:
- Quem aviso primeiro na empresa?
- Quem assume minhas tarefas mais importantes?
- Quais reuniões podem ser canceladas?
- Quais compromissos outra pessoa pode assumir?
- Quais três tarefas somente eu consigo executar?
- Quem pode compor minha rede de apoio?
- Onde estão as informações que a equipe precisará?
Faça isso em um dia tranquilo.
Porque às 4h da manhã, depois de medir febre, trocar roupa de cama e dormir duas horas, você provavelmente não estará no melhor momento para redesenhar a estrutura organizacional da empresa.
Não use o dia de hoje como medida da sua capacidade
Talvez você tenha produzido pouco.
Talvez tenha cancelado tudo.
Talvez tenha conseguido trabalhar normalmente durante algumas horas.
Talvez tenha passado o dia inteiro no hospital.
São situações diferentes.
O fato de sua agenda ter desmoronado hoje não significa que sua rotina não funciona.
Significa que aconteceu um imprevisto.
E uma rotina real precisa possuir espaço para imprevistos.
CEO ou mãe?
No final, eu voltaria à pergunta do título.
CEO ou mãe?
As duas.
Só não necessariamente com a mesma intensidade em todas as horas de todos os dias.
Quando minha filha precisa de mim, existem momentos em que ser mãe ocupa praticamente todo o espaço disponível.
E a CEO?
Ela aparece justamente naquilo que construiu antes.
Na equipe que consegue continuar.
Nos processos.
Na delegação.
Na confiança.
Na capacidade de remarcar.
Na decisão de que nem tudo é urgente.
E talvez uma das maiores conquistas de uma empreendedora não seja construir uma empresa que precise dela o tempo inteiro.
Talvez seja construir uma empresa que continue funcionando quando a vida exige que ela esteja em outro lugar.
Porque empresa é importante.
Carreira é importante.
Clientes são importantes.
Crescimento é importante.
Mas existem dias em que seu lugar simplesmente precisa ser ao lado do seu filho. 💜
E amanhã, quando as coisas estiverem melhores, você volta.
A empresa continuará ali.





